TRT-MT pede desculpas por memes polêmicos sobre a lei trabalhistaTempo de leitura: 3 min.

0
1406

A união de memes com legislação trabalhista trouxe diversas críticas ao Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso (TRT-MT). Por meio de suas redes sociais, a instituição fazia publicações com orientações polêmicas relacionadas aos direitos do empregado e do patrão. Diversas postagens foram excluídas, após as reações negativas do público que acompanha as páginas do tribunal.

O TRT-MT argumenta que os memes eram utilizados para tornar a linguagem jurídica mais simples e para facilitar a comunicação com seus seguidores nas redes sociais. As páginas são administradas pelo próprio setor de comunicação social da instituição. Em razão do modo descontraído com que tratava assuntos considerados complexos, o tribunal passou a ganhar seguidores de diversas partes do país.

Atualmente, possui pouco mais de 49 mil curtidas no Facebook e 6,7 mil seguidores no Twitter.

Os elogios de outrora, porém, deram lugar a diversas críticas nas últimas semanas. Entre os exemplos de publicações que receberam comentários negativos está uma que se utiliza de um dos memes mais recentes da internet: o do rapper americano Akon apontando o dedo, como se estivesse dando um conselho. A imagem do cantor é acompanhada por uma breve argumentação sobre ações trabalhistas. “Vai ajuizar uma ação trabalhista? Irmão, cuidado para não pedir o que não tem direito. Você pode acabar pagando os honorários do advogado da empresa.”

A publicação foi considerada uma espécie de ameaça ao trabalhador que entra na Justiça contra um empregador. “Esse dedo apontado é como um alerta, como se o funcionário estivesse cometendo um erro ao mover a ação trabalhista”, justifica um jurista ouvido pela reportagem, que pediu para não ser identificado. Cinco minutos após publicar a imagem, o TRT-MT excluiu a postagem, pois justificou que “a mensagem extraída apenas com base no meme dava uma conotação distinta daquela pretendida.”

Em outra postagem considerada polêmica, o TRT-MT orienta sobre os riscos profissionais de se relacionar com um colega de trabalho. “Paquerar o cremoso(a) no trabalho dá problema? Não há nada na legislação que proíba, mas é prudente evitar manifestações amorosas em serviço”, aconselha. O texto é ilustrado pela imagem de um jovem negro sem camisa.

A página também orientou sobre a possibilidade de o patrão demitir o funcionário que falsificar atestados médicos. “O empregado acha que pode me enganar com atestado falso… Logo eu, ‘Xeroque Romes [em alusão ao personagem Sherlock Homes]. ‘ Vou dar uma justa causa!”, diz uma postagem do tribunal.

Todas as publicações mencionadas nesta reportagem, além de outras que também repercutiram negativamente, foram apagadas. Os seguidores apontavam, entre outras críticas, que elas faziam explicações equivocadas sobre a legislação trabalhista.

Em comunicado enviado à BBC Brasil, o Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso informa que a utilização de memes em suas redes sociais foi suspensa. “Faremos uma pesquisa para subsidiar a decisão se devemos abolir ou continuar usando esse formato de comunicação. Caso o resultado da pesquisa seja pela continuidade, vamos estabelecer controles mais rigorosos para filtrar o conteúdo e impedir novos erros”, pontua.

TRIBUNAL LAMENTA CRÍTICAS

O TRT-MT relata que recorreu à utilização de elementos da cultura pop e geek para se aproximar de um público diferente daquele que rotineiramente utiliza a Justiça do Trabalho. “As postagens, sobretudo as que se utilizam de memes, não devem ser vistas isoladamente, mas em conjunto com os textos que as acompanham, os quais explicam o conteúdo abordado. A finalidade do meme é chamar atenção e fazer com que o texto seja lido, pois nele se encontra a mensagem principal que se deseja transmitir.”

“O Tribunal lamenta a repercussão que alguns memes causaram e reforça que nunca foi seu objetivo reproduzir estereótipos ou tomar posição sobre qualquer tema jurídico polêmico, mas apenas informar e alertar a população”, acrescenta.