Crianças migrantes limpam privadas e seguem ordens em detenção nos EUATempo de leitura: 4 min.

0
88

Seja comportado. Não sente no chão. Não compartilhe sua comida. Não use apelidos. E é melhor não chorar. Se você chorar, isso pode prejudicar seu processo.

As luzes são apagadas às 21h e acesas ao amanhecer, e depois disso você tem que arrumar sua cama seguindo as instruções passo a passo fixadas à parede. Lave o banheiro e passe pano no chão, escove as pias e privadas. Depois disso é hora de formar uma fila para o café da manhã.

“A gente tinha que fazer fila para tudo”, recordou Leticia, uma garota da Guatemala.

Pequena, magra e com cabelos pretos compridos, Leticia foi separada de sua mãe depois de elas terem atravessado a fronteira ilegalmente no final de maio. Ela foi enviada a um abrigo no sul do Texas, um dos mais de cem centros de detenção encomendados pelo governo para abrigar crianças migrantes, espalhados pelo país e que são um misto de escola interna, creche e presídio de segurança média. Esses centros são reservados para pessoas como Leticia, 12 anos, e seu irmão Walter, 10.

A lista de proibições do centro incluiu a seguinte: não toque em outra criança, mesmo que essa criança seja seu irmãozinho ou irmãzinha.

Leticia queria dar um abraço em seu irmão menor, para deixá-lo mais tranquilo. Mas, recordou, “me disseram que eu não podia encostar nele”.

Em resposta a reações de indignação internacional, o presidente Donald Trump emitiu recentemente uma ordem executiva para acabar com a prática de sua administração, adotada amplamente em maio, de tirar crianças à força de seus pais migrantes que tivessem entrado no país ilegalmente. ]

Sob essa política “tolerância zero” de implementação das leis de fronteira, milhares de crianças foram enviadas para centros de detenção, às vezes situados a centenas ou milhares de quilômetros de onde seus pais estavam sendo detidos para serem processados criminalmente.

Até a semana passada o governo devolveu a pais migrantes pouco mais de metade das 103 crianças de até 5 anos de idade cuja devolução foi determinada por ordem judicial.

Mas mais de 2.800 outras crianças permanecem nesses centros, locais cujos ambientes variam da austeridade impessoal a algo quase bucólico, exceto pelo fato de as crianças serem fortemente desencorajadas de partir e de seus pais ou responsáveis estarem distantes.

Algumas dessas crianças foram separadas de seus pais, enquanto outras foram classificadas na fronteira como “menores desacompanhados”.

Dependendo de diversas variáveis, incluindo a sorte, uma criança pode ser enviada a um abrigo juvenil de 13 hectares em Yonkers, Nova York, com mesas de piquenique, campos esportivos e até uma piscina ao ar livre.

“Como um acampamento de férias”, disse o deputado democrata Eliot N. Engel, que visitou o local recentemente.

Ou a mesma criança pode acabar em um motel convertido ao lado de uma estrada deprimente em Tucson, Arizona, com lojas de descontos, postos de gasolina e hotéis baratos de beira de estrada. A recreação acontece em uma área fechada sem gramado, e a piscina do velho motel está coberta e fora de uso.
Mas parece haver elementos comuns a todos esses centros, quer fiquem no norte do Illinois ou no sul do Texas: o grande número de regras. O toque de despertar e o toque de apagar as luzes. As várias horas de aulas diárias, que podem incluir uma aula de educação cívica sobre história e leis americanas, embora não necessariamente as leis que os levaram a ser encarcerados.

Mas o que mais une todos esses centros é uma aura coletiva de incerteza dolorosa, com dezenas de crianças reunidas sob o mesmo teto, todas sem ideia de quando vão rever seus pais.

Do abrigo onde estava no sul do Texas, Leticia escreveu cartas à sua mãe, detida no Arizona, para lhe dizer o quanto ela lhe fazia falta. Ela contou que escrevia as cartas rapidamente depois de terminar a lição de matemática, para não infringir outra regra: é proibido escrever no dormitório. É proibido mandar ou receber correspondência.

Ela guardou as cartas em uma pasta para o dia em que ela e sua mãe forem reunidas, o que ainda não aconteceu. “Já tenho uma pilha”, ela disse.

Outra criança pediu à sua advogada para colocar no correio uma carta à sua mãe detida, de quem ela não tinha notícias depois de três semanas separadas.

“Mamãe, te amo, te adoro e estou morrendo de saudades”, escreveu a garota em letras de forma. E suplicou: “Por favor Mamãe se comunique comigo. Por favor, Mãe. Tomara que você esteja bem. Você é a melhor coisa da minha vida”.

As questões complexas da reforma da imigração e policiamento da fronteira incomodam os presidentes dos EUA há pelo menos duas gerações.

A administração Trump chegou à Casa Branca em 2017 com a promessa de acabar com esses problemas. Durante vários meses ela optou por uma das medidas dissuasivas mais ásperas já adotada por um presidente nos tempos modernos: separar crianças migrantes de seus pais.

Eis o que vai ficar marcado na memória de algumas dessas crianças.