Novo governo dominado por mulheres toma posse na EspanhaTempo de leitura: 5 min.

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O Gabinete do novo presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, tomou posse nesta quinta-feira, com uma ampla maioria feminina ocupando cargos da linha de frente do time pela primeira vez na História do país. Dos 17 ministros, 11 são mulheres. Com isso, a Espanha torna-se também o país com mais mulheres no primeiro escalão do governo no mundo. Além da maioria feminina, o Gabinete de Sánchez também aponta para uma maior tentativa de integração da União Europeia (UE), num claro contraste com a recém-apresentada eurocética equipe do novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte.

Seus membros prestaram juramento nesta quinta-feira no Palácio Zarzuela, perante o rei, mas na ausência de símbolos religiosos, como o fez Sánchez, no sábado, sem a Bíblia e o crucifixo, contrariando a tradição espanhola. Ao prestarem juramento, várias das integrantes do Gabinete se referiram de maneira reivindicativa ao “Conselho de ministras e ministros”.

Entre os cargos destinados a mulheres estão o de vice-presidente do governo, ocupado pela socialista Carmen Calvo, que também assume o Ministério da Igualdade — pasta recriada após o país viver intensas manifestações de mulheres em março em defesa de seus direitos. O Ministério da Economia foi para a diretora-geral de Orçamento da UE na Comissão Europeia, a veterana socialista Nadia Calvino. A ministra da Justiça será a procuradora antiterrorismo Dolores Delgado. A presidente do Parlamento, Margarita Robles, assumirá a Defesa, enquanto Magdalena Valerio será a ministra do Trabalho, Reyes Maroto ficará com a pasta de Indústria, e Isabel Celaá assumirá a Educação.

— Esse governo nasce com o objetivo de servir à modernidade da Espanha, impulsionar o crescimento sustentável e renovar a vida pública no nosso país — declarou Sánchez.

ACENO A MACRON

O novo presidente de governo, que sempre se apresentou como um defensor do projeto europeu, disse na semana passada estar disposto a comandar um governo “fortemente pró-Europa”.

Para as Relações Exteriores, Sánchez designou o ex-chefe do Parlamento Europeu Josep Borrell. Nomes próximos a ele indicam que a escolha de Borrell amplia a aura pró-europeia do governo e ajuda Sánchez a buscar um papel mais profundo no debate sobre a reforma do bloco europeu proposto pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Fontes ouvidas pelo diário “Financial Times” indicaram que o novo presidente do governo adota uma postura “mais alinhada com a França do que com a Alemanha”.

Charles Powell, diretor do Instituto Real Elcano, um centro de estudos de Madri, acredita que o governo de Mariano Rajoy estava “confortável em assumir uma posição conservadora quanto ao programa de reforma europeia, para transformar-se na ‘Alemanha do Sul’”.

— O governo de Sánchez será mais ousado e mais ambicioso, abraçando o discurso de estar genuinamente comprometido com uma integração política e econômica mais profunda — afirmou Powell ao “Financial Times”.

A indicação do ex-presidente do Parlamento Europeu também seria um sinal aos separatistas catalães de que Sánchez pretende manter as políticas de seu antecessor, Mariano Rajoy, em relação às aspirações de independência da região, mesmo tendo contado com o apoio de nacionalistas da região autonôma para assumir o cargo. Borrell, nascido na Catalunha, é um ferrenho crítico do separatismo, e nas palavras de José Luís Abalos, presidente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), legenda de Sánchez, sua nomeação “deixa bastante claro que não estamos negociando nada nem fazendo promessas”.

Sánchez, no entanto, não terá um governo tranquilo. O PSOE tem apenas 84 das 350 cadeiras — o que indica uma governabilidade difícil e dependente do apoio do Podemos (esquerda radical) e dos nacionalistas bascos e catalães.

— Todos são altamente qualificados, trazem uma vocação ao serviço público e refletem o melhor da Espanha — disse Sánchez em entrevista coletiva, referindo-se ao Gabinete. — É pró-igualdade de gênero, transgeracional, aberto ao mundo, mas ancorado na UE.

Aos 46 anos e sem experiência em governo, Sánchez assumiu o controle de um país que, após superar a crise, teve quatro anos seguidos de crescimento econômico — em três deles os índices superaram os 3% —, mas que ainda mantém a segunda pior taxa de desemprego da zona do euro, 16,7%, superado apenas pela Grécia.

SÉRIE DE DESAFIOS

Prometendo atender às “urgências sociais da Espanha”, o líder socialista afirmou que lutará contra todo tipo de desigualdade, uma tarefa difícil num momento em que economistas apontam a chegada de “nuvens negras no horizonte econômico”. O próprio Sánchez, ao tomar posse, enumerou uma série de desafios, destacando os baixos salários e pensões, o alto desemprego, a desigualdade salarial de gênero e os cortes na saúde publica. E logo após receber o voto de confiança do Parlamento, afirmou que o primeiro objetivo de seu governo seria “cumprir com os objetivos fiscais europeus e garantir estabilidade orçamentário e macroeconômica”.

— Num primeiro momento, ele não terá muita margem de manobra porque se comprometeu com os orçamentos do governo conservador e com a meta de déficit público determinada por Bruxelas — afirmou à Reuters o professor de Economia Juan Carlos Martínez Lázaro, da IE Business School, que destaca os rumores de que os socialistas poderiam aumentar impostos para fortalecer setores em apuros, como a Previdência. — Seria suicídio para os socialistas, que buscam maneira de recuperar os eleitores perdidos.

Com apenas 84 assentos socialistas no Parlamento, longe da maioria absoluta de 176, a primeira “dor de cabeça” para Sánchez será obter apoio para estabelecer o teto de gastos, um passo crucial para preparar os orçamentos de 2019, que devem ser apresentados em setembro, alerta Antonio Barroso, do escritório de Inteligência da consultora financeira Teneo.

E logo, aqueles que o apoiaram para derrubar Rajoy, como o Podemos, que reivindica mais políticas sociais, ou os nacionalistas bascos e catalães, começarão a fazer suas reivindicações, em curto prazo até meados de 2020, aumentando as possibilidades de eleições antecipadas.

— O que farão é aplicar alguma maquiagem — estima Francisco Javier Velázquez, professor da Universidade Complutense de Madri, descartando medidas como a revogação da reforma trabalhista de 2012, que, segundo a esquerda, debilitou o mercado de trabalho.